• Lorena Buiatti

Chapeuzinho Vermelho

O fogo se extinguia lentamente. O cenário era lindo, se você não estivesse correndo risco de vida. A neve tinha se espalhado pela floresta como um tapete branco que cobre tudo o que não deve mais ser visto. A brancura cegava os olhos não treinados. As árvores estavam cinza, talvez da neve, talvez da fuligem que se soltou do fogo e se prendia aos troncos como garras.

A única coisa que se destacava das chamas e do tapete branco, era uma jovem mulher de cabelos vermelhos. Os fios tinham as cores das chamas que morriam. Eles estavam amarrados em tranças que se desfaziam e caíam em suas costas sobre uma capa vermelha como o sangue. A vida dela corria perigo.

Ingrid tinha o rosto sujo de cinzas e as lágrimas abriam caminhos de sujeira em sua face. Ela olhava para o fogo, em choque. Ele fora atiçado e criado para destruí-la. A paisagem serena e bela parecia rir dela.

A garota não era alguém comum. Quer dizer, em muitos sentidos ela era, apesar da capa vermelha que usava desde que era criança. Mas ela era também uma bruxa. Uma bruxa, porém, que nunca havia movido um vidro de olhos de sapo para fazer mal para outro ser.

Apesar de sempre ter sido bondosa e criada por mulheres incríveis e igualmente bondosas, alguém perseguia Ingrid. Alguém que tentara matar ela e sua avó, quando a jovem não passava de uma criança passeando pela floresta pela primeira vez.

Aprender bruxaria e feitiços com sua avó, foi a forma que Ingrid encontrou de se manter protegida – e escondida. Mas agora ele sabia onde ela estava, a criatura sabia. E ela tinha aprendido alguns novos truques com o passar dos anos também.

Na noite passada, por exemplo, Ingrid, estava na floresta, a procura de cogumelos e frutas silvestres quando encontrou um jovem rapaz que ela nunca tinha visto antes. Começaram a conversar e ele afirmou estar perdido, ela ofereceu a ele água e um pouco da comida que ela carregava.

Conversaram por horas, sobre tudo e sobre nada. Ela adormeceu sob as estrelas, aquecida pela singela fogueirinha que eles haviam acendido. Acordara horas mais tarde, com o fogo lambendo a vegetação. Um fogo mágico, encantado, que ela não conseguiu apagar.

Ela se perguntou como deixou isso acontecer e correu e correu, a procura de abrigo. O que Ingrid não sabia, é que enquanto as lembranças da noite passada passavam por sua mente, uma raposa-cinzenta, com olhos da mesma cor a observava não de muito longe.

A raposa de longe parecia comum e sem importância. De perto, porém, era possível ver a idade e a malícia em seus olhos e como eles estavam desejosos, fixados nas costas da garota. O bicho parecia sorrir, mas nada fofo ou inofensivo. Era o sorriso de um predador.

Ingrid, por outro lado, estava desolada. Ela havia perdido tudo afinal, o fogo engolira grande parte da floresta que fora sua casa por tantos anos, a sua cabana de madeira também já não existia e, como consequência, não havia como recuperar nada o dentro estava.

Ela sentiu a presença. Grande e voraz. E percebeu que a criatura estava perto. Limpou as lágrimas e sentou-se com as costas retas, escutando. A raposa percebeu a mudança na postura de Ingrid e começou a se aproximar, os passos abafados pela neve. Aquela perseguição ia acabar, enfim.

Ingrid virou-se lentamente, vara de condão em mãos, pronta para atacar e se defender. Ela já não mais podia suportar a ideia de passar a vida fugindo. O ser já havia tomado coisas demais dela. “Onde você está?” – perguntou. E só então viu a raposa.

Encararam-se por um longo tempo, cinza encontrou o verde. Em longos segundos já não era mais uma raposa-cinzenta. Sem desviar os olhos, a criatura mexeu-se e mudou. Se tornou algo maior, mais peludo, mais impiedoso.

Com uma risada, atacou e a garota gritou. O bem mais uma vez encontrou o mal. Em momento algum a risada parou, mas se transformou. Já não era maléfica, era de alívio.

Se houvesse viva alma na floresta, passando por ali. Veria uma garota de cabelos laranjas, com uma capa vermelha, rindo e chorando ao lado de uma fogueira quase extinta. Aos seus pés, o corpo de uma raposa-cinzenta aos poucos se desfazia e sumia.

Ingrid podia, finalmente, viver em paz.

writing prompt: dying fire, red hair in messy braids, a grey fox with silver eyes

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