• Lorena Buiatti

Aquilo que eu queria falar



Tem umas coisas que eu quero pôr pra fora, mas não dá. Engasga minha garganta, mas não sai. Eu nunca fui diagnosticada com transtorno de ansiedade e/ou depressão. Então isso aqui não será mais um daqueles posts enormes sobre “como uma pessoal com ansiedade social se sente” ou “veja tirinhas de como realmente é a depressão”. E veja bem, não estou fazendo pouco caso. O caso é que esse não é meu caso (na verdade pode ser e eu não sei, mas sei lá).


Todos temos dias ruins. Certo? Certo. Mas esses dias ruins acabam comigo. São dias que não quero sair de casa, quero me esconder do mundo embaixo das cobertas (não importa o quão quente esteja). São dias que não quero existir, são dias que não tenho forças nem para dormir em paz.

Ok, Lorena. Os dias ruins de todos nós são assim, por que os seus são tão diferentes? Eu não disse isso. Eu disse que o blog é meu, e vou falar deles aqui. Eu disse que preciso externalizar esse peso no meu peito (oh, pessoas com dias ruins, uni-vos!).

Outro grande problema desses dias ruins é a quantidade de doces (ou batata frita) que eu quero comer. Sempre. Não dá outra. Acordei ansiosa – BUM! – comi uma caixa de chocolates (ou o maior sanduíche do fast food com batata frita gigante), mesmo que meu estômago seja feito de um enorme nó. E meus dedos, tadinhos, como eles sofrem: Passo o dia arrancando a unha (eu não como, uso outra unha para arrancá-la) e mexendo nas cutículas. Sem contar o gelo nas minhas mãos.

Uma dificuldade que tenho encontrado é em encontrar os dias bons. Eles estão correndo de mim, os danadinhos! Tem uma coisa, Neil Gaiman chamou de, “polícia da fraude” (ou Síndrome do Impostor) e eu adotei o nome, que é aquela sensação de que, quando tudo está certo, é por que tem alguma coisa errada. Eu acordo no meio da noite, às vezes, imaginando (ou nos piores dias – sonhando) que descobriram alguma coisa errada que fiz – mesmo estando tudo nos devidos lugares!

O problema, mesmo do mais limitado tipo de sucesso, é a inabalável convicção de que você está escapando com alguma coisa e que a qualquer momento podem te descobrir. É a Síndrome do Impostor, algo que minha esposa Amanda batizou de Polícia da Fraude.

– Neil Gaiman (2012)

É simplesmente horroroso. Você não tem para onde fugir – como você escapa da sua própria mente? A sensação pior ainda é não conseguir compartilhar esse aperto com ninguém. Você sabe que muitas vezes está sendo apenas boba por se sentir assim. Mas é tão real que atrapalha o dia a dia, é tão real que atrapalha seu sono.


Peço desculpas por eu ser assim, não queria – eu juro. Mas só de escrever (e publicar esse texto online) já começo a pensar que outras pessoas irão ler isso – até mesmo pessoas conhecidas. E minha mão já está doendo de tão gelada e meu estômago ameaça colocar para fora a comida que acabei de almoçar – e a vontade de chorar que fica indo e voltando?

Eu vou ficando por aqui, então. Era um desabafo mesmo. O texto entende melhor e é mais receptivo que um humano. Obrigada por ler até aqui e, falando nisso, se você conhecer alguém com essa loucura parecida com a minha, por favor, evite as seguintes frases:

“Vai ficar tudo bem.”

“É só um dia ruim/ uma fase.”

“Nossa, mas ontem/ há meia hora você estava tão bem!”

(etc)

Se você quiser ajudar mesmo, dê um abraço/ um carinho/ um ombro amigo. Se você achar que é o caso, converse com a pessoa sobre procurar ajuda profissional. Mas nunca jamais diga: “Isso é frescura sua”. Vai que a pessoa acredita e a condição dela piora?


fotos: . e .

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