• Lorena Buiatti

a porta que ainda não se fechou


muitas vezes na vida nos culpamos pelo que dissemos, mas, mesmo que no presente não vejamos, no futuro percebemos que o que mais dói é aquilo que ficou dentro de nós, não dito, preso e sem rumo - sem um fim. pode ser uma palavra amiga ou uma declaração de amor. aquela porta que ainda não se fechou.


eu conheci Ian em uma viagem. estávamos hospedados no mesmo hostel e descobrimos que éramos da mesma cidade. nos tornamos amigos. fomos a cafés, restaurantes e boates.


o sorriso dele era incrível, a energia também. dançamos e bebemos juntos até o raiar do sol. descobrimos a cidade à pé. fomos em pontos turísticos e em bairros residenciais. era perfeito.


mas Ian tinha uma namorada. uma namorada de anos, que ele iria pedir em casamento. e eu estava me apaixonando. cinco dias juntos e eu já estava fora de mim.


na noite no último dia fomos a um bar perto do hostel, era como havíamos combinado de dar adeus, pois dali eu voltaria para casa e ele continuaria viagem. depois de os drinques chegarem, sorrimos constrangidos. havia uma energia diferente ao redor dele e eu ainda não sabia o que era.


a noite passou devagar e não foi tão agradável quanto os dias anteriores. ao voltarmos para o hostel ele passou o braço nos meus ombros e eu perguntei o que havia de errado. ele parou de andar e nos encaramos.


- eu me sinto diferente perto de você. quero te abraçar e sentir seu cheiro. há uma semana eu sonho em te beijar. - ele disse


- eu também me sinto assim com você. - eu respondi - quero você ao meu lado, não apenas aqui. mas ao voltarmos pra casa também. andar de mãos dadas pelos lugares que já conhecemos.


- ah - ele suspirou - eu também. mas não posso. eu prometi que depois da minha viagem, eu e ela moraríamos juntos e o casamento parece um passo óbvio.


- não é óbvio se você se sente assim por mim - eu respondi. o coração afundando. - mas também não quero entrar no meio de vocês. um amor de viagem, é o que temos.


- um amor de viagem apenas - ele deu um sorrisinho de lado e se inclinou para me beijar.


eu o beijei de volta, quero dizer, era tudo o que eu queria. e por mais errado que fosse, eu não consegui impedir. o coração quer o que o coração quer, não é?


tudo o que aconteceu entre nós aquela noite foi um beijo. e no outro dia de manhã Ian tinha partido sem se despedir. quero dizer, ele deixou uma mensagem no meu celular: “por favor, não me procure mais”.


mas eu não consegui não procurá-lo. eu sabia quanto tempo ele ficaria em viagem e onde ele trabalhava. algumas semanas depois, fui até lá, depois do expediente.


eu não sabia se deveria me mostrar ou me esconder. mas decidi ficar do outro lado da rua, meio à mostra meio atrás de uma coluna. e ainda bem que não cheguei com muitas ousadias, pois o que vi quebrou meu coração.


lá estava Ian, saindo do escritório. e se aproximando chegou uma bela mulher, cabelo escuros e uma confiança natural que poucas pessoas têm. eu sabia quem ela era mesmo antes que ele a beijasse. era sua namorada e eles provavelmente estavam indo procurar apartamentos juntos.


eu fiquei ali mais um tempo, respirei fundo e voltei pra casa segurando as lágrimas.


muito tempo se passou desde que conheci Ian. eu agora estou com outra pessoa. mas volta e meia a memória me trai. fico me lembrando daquela viagem, de como Ian sorria, das piadas que contava e dos lugares que conhecemos juntos.


a minha sorte é que mesmo em uma cidade não muito grande, é possível passar anos sem esbarrar com alguém conhecido. até hoje mais cedo.


eu estava em meu café preferido. livro aberto na mesa, uma xícara de café esfriando nas mãos e os pensamentos em outro planeta. percebi de canto de olho um vulto conhecido.


dez anos mais velho, começando a ficar grisalho, mas os mesmos olhos inquietos e cheios de energia. Ian estava melhor do que antes. ele parou em frente à minha mesa meio incerto e sorriu. eu sorri de volta.


- posso me sentar? - ele perguntou.


- claro, fique à vontade - foi tudo o que fui capaz de dizer.


ele comprou um café e se sentou em frente a mim.


- uau, muito tempo que não nos vemos. - ele disse.


- quase uma década se não me engano - bebi um gole do meu café gelado.


e foi isso que foi dito por um longo tempo.


- eu...


- quando…


começamos a falar juntos. rimos e esperamos.


- pode falar. - ele ofereceu.


- preciso confessar algo - eu disse de uma vez. - quando você voltou de viagem eu fui até o seu trabalho, mas vi você e sua namorada. não consegui fazer mais nada e decidi atender ao seu pedido de nunca mais te procurar.


- é uma pena que você tenha feito isso. - ele me olhou triste. - mas eu fiz algo parecido. mais ou menos um mês depois de nos despedirmos, procurei você aqui, nesse café. mas pela janela eu vi que você tinha companhia e como não sabia se era amizade ou algo a mais, decidi não interromper.


- eu hoje tenho outra pessoa em minha vida, mas às vezes ainda penso em você. - admiti. - me sinto mal quando isso acontece, mas o que vivemos foi muito intenso.


- nem me fale. - ele riu. - quando eu saí do hostel e peguei o avião tudo o que eu queria era você ali comigo, para segurar minha mão e conhecer o mundo comigo. eu me casei com a minha namorada. hoje sou pai, mas não mais casado. e ainda dói a forma que eu e você nos despedimos.


ele se levantou.


- e dói porque eu queria dizer que te amava, que te amo. mas da mesma forma que você não quis se intrometer em meu relacionamento, eu também não quero atrapalhar sua felicidade. fico feliz, desde que você esteja bem.


e assim como veio, ele se foi. deixei a xícara na mesa e fui atrás dele.


- Ian, espera. - eu pedi. - ainda existe uma chance para nós e eu não quero fechar essa porta sem termos tentado. se você estiver disposto, é claro.


ele correu e me abraçou. nos beijamos ali mesmo, no meio da rua. foi tão mágico quanto havia sido dez anos atrás.


terminar para ficar com outra pessoa, talvez não seja a melhor forma de se terminar um relacionamento. pelo menos não para quem levou um pé na bunda. mas um sentimento assim que perdura por dez anos, não é um sentimento qualquer.


não sei o que o futuro preparou para mim e Ian, mas mal posso esperar para descobrir!


made with ♥ in MG, 2020