• Lorena Buiatti

A magia de amar entre livros


Em uma tarde quente e tediosa, meu relaxamento preferido era me perder pelas prateleiras de um sebo. O pó dourado que sai das páginas amarelas me fascina e encanta e, ao contrário da alergia que gera em alguns, me enche da perspectiva mágica de novos mundos.

Certo vez, após o estresse de uma semana turbulenta, reservei o sábado à prática de meu hobby. Ao entrar no recinto já senti a “magicidade” que me esperava. Cumprimentei o dono da livraria, que a essa altura já se tornara um velho conhecido, e me embrenhei nas fantasias.

Passava por entre as prateleiras como uma garotinha em um piquenique em dia de sol, tocava cada lombada e sentia suas diferentes texturas, havia couro, papel, em algumas eu podia sentir as letras com o nome do autor e da obra. Parei na minha estante favorita, “Língua estrangeira – J”. Ali procurava sempre por uma obra nova de Júlio Verne.

Perdida com nomes e sinopses, escutei alguns passos atrás de mim. Me virei, mas não vi ninguém, imaginei que meu “acompanhante” estava na prateleira de trás e, ao começar a me mover para voltar aos livros, me deparei com um par de olhos.

Dois atraentes e castanhos globos oculares me fitavam, as sobrancelhas eram arqueadas e bem definidas, porém grossas. Eu o olhei, a princípio meio abobalhada, contudo me senti curiosa, em seguida. Quem seria ele?

O ar parecia suspenso em pequenas partículas e estava denso, mas não tenso. Emanava uma tensão diferente, era como se estivéssemos conectados por uma linha, uma força, invisível que atraia os olhares. Eu queria me mexer, falar com ele, aproveitar o momento dourado que nos cercava.

Para minha decepção, ele se moveu e tudo terminou, o ar suspenso caiu por terra junto com uma pequena risada que soou como o tintilar de sinos. Tão rapidamente quanto apareceram, os olhos se foram. Balancei a cabeça para os lados afim de me desatordoar.

Corri para a estante onde eu o havia visto, mas já não havia ninguém. Andei ansiosa pelo sebo, com um livro junto ao corpo, mas eu estava sozinha! Apoiei-me a uma parede e tentei recuperar meu fôlego, perguntas lotavam minha mente: “Quem era ele?”, “Por que não havia falado comigo?”, “O que havia acontecido?”.

Lembrei da sensação que havia experimentado, recordei-me da imobilidade e da magia daquele fugaz sentimento de paixão e entrega. Pensei que havia ficado louca e a percepção disso fez-se mais forte quando, ao olhar pela porta do estabelecimento, encontrei aqueles olhos novamente, porém, desta vez, eles acompanhavam uma bela boca que me sorria.

Em um piscar de olhos tudo se foi. E eu fiquei. Perdida, pensando no que vira. Sabia que o levaria para sempre dentro de mim e talvez, quem sabe o levasse comigo por essas linhas tortas da vida, caso o encontrasse mais uma vez nesse jogo de “esconde-esconde”.

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